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Fibromialgia: saiba mais da doença que tirou Lady Gaga do palco do Rock In Rio

"Brasil, eu estou arrasada que não estou bem o suficiente para ir ao Rock In Rio. Eu faria qualquer coisa por vocês, mas eu tenho que cuidar do meu corpo agora". A declaração é da estrela da música Lady Gaga, que acaba de cancelar sua participação no festival que começa nesta sexta-feira na capital carioca. Ela faria a apresentação principal no Palco Mundo no primeiro dia do evento, e pediu o entendimento dos fãs pelo Twitter, que já a esperavam na entrada da Cidade do Rock. "Peço a sua compreensão e prometo que vou voltar e tocar para vocês em breve", postou. A cantora está sofrendo com a fibromialgia, problema relacionado a dores contínuas na região dos quadris, e vinha desmarcando outros shows que faria no início do mês. A banda Maroon 5, que estaria presente no sábado, substituirá Lady Gaga com uma performance extra.

A doença é caracterizada por dor generalizada persistente, por no mínimo três meses seguidos, acompanhada por fadiga crônica, ansiedade, depressão, distúrbios do sono, alterações intestinais e pontos dolorosos em regiões anatômicas bem definidas.

Fibromialgia: a doença que tirou Lady Gaga do Rock in Rio/Foto: DivulgaçãoFibromialgia: a doença que tirou Lady Gaga do Rock in Rio/Foto: Divulgação

Durante vários anos, o desconhecimento sobre a fibromialgia levou os pacientes acometidos por esses sintomas a serem tachados de “dramáticos” ou “estressados”, evoluindo para um diagnóstico de transtornos emocionais. Mesmo com o reconhecimento da doença considerada crônica e pesquisas intensivas sobre o assunto, o fibromiálgico pode levar até três anos para descobrir a justificativa para as dores que são difundidas pelo tecido muscular. O fato de o reumatologista (médico dedicado aos estudos e tratamento da enfermidade) ser procurado apenas depois que o paciente passa por três outros profissionais de áreas distintas está entre os motivos para a morosidade na identificação da patologia.

CAUSAS, SINTOMAS E TRATAMENTO

O surgimento da doença está atrelado à genética e a situações de estresse crônico. “Há um padrão hereditário, mas não existe um gene identificado para a fibromialgia”, reconhece Marcelo Cruz, reumatologista e coordenador da Comissão de Dor, Fibromialgia e Outras Síndromes Dolorosas de Partes Moles da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR). Doenças graves, traumas emocionais ou físicos e até mudanças hormonais podem desencadear os sintomas, que começam com uma dor localizada que progride e é difundida para todo o corpo. O mal afeta mais as mulheres - de cada dez pacientes, de sete a nove são do sexo feminino. A razão para essa incidência não é clara, por não haver relação aparente com hormônios.

A enfermidade não tem cura, mas diante de certas providências é possível conviver com a doença. Entre elas, a prática frequente de trabalhos aeróbicos. “Atividade física, principalmente aeróbica, tem efeito sobre o padrão de dor e melhora a fadiga. Existem trabalhos que mostram que até o tai chi chuan pode ajudar a amenizar os sintomas da fibromialgia”, ressalta o médico. Antidepressivos também podem ser indicados, já que agem sobre os neurotransmissores, tendo efeito sobre a dor. Diante de dores distintas e com intensidade variada, todo o tratamento é individualizado.

As pessoas que sofrem de fibromialgia têm um limiar de dor rebaixado. Estímulos que normalmente não causam dor em outras pessoas, como um carinho, podem ser dolorosos para o fibromiálgico. Segundo Roberto Heymann, reumatologista do Hospital Albert Einstein e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), isso ocorre devido a um desarranjo dos mecanismos que controlam a dor no sistema nervoso central. “As causas desse controle inadequado são desconhecidas. Acredita-se numa predisposição genética que, quando exposta a alguns fatores ambientais, gera o quadro de fibromialgia. O que sabemos é que os mecanismos do sistema nervoso central associados à sensação e transmissão da dor encontram-se exacerbados e os mecanismos que deveriam inibir ou filtrar essas sensações estão diminuídos, permitindo uma transmissão anormal de estímulos de dor ao cérebro”, explica.

Além disso, há fatores externos que influenciam a transmissão e a sensação de dor. O estado emotivo e o frio são alguns deles. A depressão, por exemplo, pode ser uma das consequências da fibriomialgia, como em tantas outras doenças crônicas, mas também o gatilho que faltava para desencadear um quadro da doença na pessoa predisposta. De acordo com Heymann, a saúde emocional tem influência direta em todas as doenças, não só na fibromialgia. “Quantas pessoas têm picos de hipertensão porque ficaram nervosos e ansiosos, por exemplo? Mas na fibromialgia, pelo fato da dor ser subjetiva, a influência que a emoção exerce na sua intensidade muitas vezes gera preconceito. O fato é que uma pessoa deprimida efetivamente sente mais dor que a população normal, pois sua sensibilidade dolorosa encontra-se exacerbada. Dessa forma, fica fácil entender que a depressão piora os quadros de fibromialgia”,afirma.

Qualquer situação de incômodo como essas também prejudica o sono, pois frequentemente o paciente acorda pela dor. Mas na fibromialgia alterações hormonais e de neurotransmissores também são responsáveis pela superficialização do sono e pela sensação de fadiga. A maioria das pessoas acometidas, portanto, tem um sono superficial e leve em que não descansam, e por consequência ficam fatigados e sem energia.

Compreensão sobre a doença

O conceito de fibromialgia, tal como entendido atualmente, provavelmente não era disseminado entre os médicos do século 20. Em 1824, o cirurgião escocês William Balfour foi o primeiro a descrever pacientes com pontos musculares hipersensíveis à palpação e passíveis de desencadear uma dor irradiada. A fibromialgia não é uma doença nova, como muitos imaginam. Historicamente, ela vem sendo apresentada com diferentes nomes: fibrosite (1904), miofibrosite (1929), síndrome fibrosítica (1952), síndrome fibromiálgica e, por fim, fibromialgia (1981). Com esse nome, em 1992, foi reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma doença reumática. Mas, mesmo tanto tempo depois, segue sendo questionada pela sociedade, pelos familiares dos pacientes e mesmo por alguns profissionais de saúde.

O reumatologista Luiz Severiano Ribeiro, do Serviço de Reumatologia do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (Ipsemg), lembra de um tempo em que os próprios pacientes não acreditavam no diagnóstico, mesmo que ele justificasse a dor, que consideravam “inexplicável”, tamanho era seu incômodo. “Chegavam reclamando de dor e cansaço, mas não levavam a sério o diagnóstico. Primeiro, não entendiam o nome. Além disso, os exames clínicos não apontavam nada e receitávamos antidepressivo. Achavam que fibromialgia era coisa de doido e, quando procuravam outro médico e contavam o que o reumatologista tinha dito, ouviam que precisavam mesmo era de psiquiatra. Essa era a clássica trajetória de um fibromiálgico 20 anos atrás. Pulavam de um médico para outro sem uma explicação e, quando recebiam o diagnóstico, não acreditavam”.

Nos últimos anos, houve um grande avanço na compreensão da fibromialgia, que é considerada uma síndrome por englobar uma série de manifestações clínicas. Eduardo Paiva, chefe da Comissão de Dor e Fibromialgia da Sociedade Brasileira de Reumatologia, professor assistente da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e chefe do Ambulatório de Fibromialgia do Hospital das Clínicas da UFPR, explica que está cada vez mais estabelecido que a fibromialgia é um problema de sensibilização do sistema nervoso, que estaria programado para sentir mais dor. Exames como a ressonância magnética funcional, capazes de mostrar o funcionamento do cérebro em tempo real, revelam a intensidade amplificada da dor, tal como relatada pelos pacientes. “O sistema nervoso pode ser modulado, amplificado. Na fibromialgia essa modulação é para mais. Como se tivéssemos um botão de volume capaz de aumentar a sensibilidade à dor", explica.

DIAGNÓSTICO

Sem qualquer exame que seja capaz de detectar a fibromialgia, o diagnóstico é essencialmente clínico, baseado em critérios classificatórios pontuados pelo Colégio Americano de Reumatologia. Entre eles, a presença de dor difusa e generalizada por mais de três meses. “Dentro do corpo existe um sistema de controle de dor. No caso dos fibromiálgicos, esse sistema sofre uma falha, por isso a doença é conhecida como síndrome de amplificação dolorosa”, explica o médico Marcelo Cruz Rezende.

A dor passa então a ocorrer de forma mais intensa nessas pessoas. Uma das justificativas para esse descontrole estaria nas alterações dos níveis de neurotransmissores no cérebro, como serotonina e noradrenalina, substâncias químicas produzidas pelos neurônios e responsáveis por transportar as informações entre as células. “Há distúrbios associados também ao funcionamento da bomba de cálcio”, acrescenta Marcelo.

Outra indicação de que o paciente sofre de fibromialgia são os 18 pontos dolorosos espalhados pelo corpo. É preciso que pelo menos 11 deles sejam reconhecidos. A revisão dos critérios estabelecidos pelo Colégio Americano de Reumatologia em 2010 excluiu a necessidade de contagem dos pontos dolorosos, orientação que ainda está sob questionamento pela área médica. Com isso, eles ainda continuam sendo utilizados como referência para a detecção do problema.

Mapa da dor/Foto: DivulgaçãoMapa da dor/Foto: Divulgação

Exames de imagem e diagnósticos não são usados para indicar a fibromialgia, mas sim para que seja eliminada a possibilidade de outras patologias. “Os sintomas são muito pouco específicos e não há nada exclusivo da fibromialgia. Por isso são realizados exames para excluir hipotireodismo, doenças do tecido conjuntivo, como artrite reumatoide, e no caso de mulheres no período fértil o lúpus”, explica Luiz Severiano Ribeiro. Há mais de 20 anos, ele coordena um grupo que está aberto ao público interessado em informações sobre as causas, tratamentos e o funcionamento da doença. “Aqui, eles têm contato com pessoas que sofrem do mesmo problema e já passam por tratamento há muitos anos. É uma forma de eles sentirem que há outras pessoas na mesma situação e que não são os únicos”, afirma Luiz.

Números:

3% da população brasileira é afetada pela fibromialgia
80% dos pacientes são mulheres
34 a 57 anos é a faixa etária de realização do diagnóstico

Sintomas associados

Fadiga intensa
Irritação intestinal e da bexiga
Dor de cabeça
Movimento involuntário das pernas durante o sono
Dificuldade para dormir
Ansiedade
Depressão
Dificuldade de concentração

Tratamento

Exercícios para alongamento e fortalecimento muscular, assim como para condicionamento cardiorrespiratório. Devem ser praticados durante 40 minutos, três vezes por semana

Técnicas de relaxamento para prevenir espasmos musculares

Hábitos saudáveis para melhorar a qualidade de vida e reduzir o estresse

Medicações para o controle da dor e dos distúrbios do sono

Da Redação com EM



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