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Vírus da bronquiolite já é mais fatal que o da gripe e coloca bebês em principal risco

As doenças respiratórias estão no auge e quem pensa que a influenza é tudo, se engana. Um perigo maior ainda ronda todos nesta época do ano e ameaça de morte, principalmente, crianças com idade abaixo de 6 meses e adultos maiores de 65 anos.

Aos 2 meses, Pedro enfrenta sua segunda hospitalização depois de contrair o Vírus Respiratório Sincicial e desenvolver bronquiolite (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)Aos 2 meses, Pedro enfrenta sua segunda hospitalização depois de contrair o Vírus Respiratório Sincicial e desenvolver bronquiolite (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

É o vírus sincicial, que já responde por 54,4% das síndromes respiratórias agudas graves (SRAG) em Minas Gerais, em 2019, se configurando como o mais importante do período. Sem vacina específica, a prevenção inclui cuidados básicos de higiene e imunizações direcionadas a outras enfermidades, mas que ajudam ainda a evitar doenças associadas e complicadoras, caso da pneumonia.

O Vírus Sincicial Respiratório (VSR) é um dos principais agentes das infecções que acometem o sistema respiratório de crianças que estão sendo amamentadas e as menores de 2 anos de idade, sendo responsável por até 75% das bronquiolites e 40% das pneumonias durante os períodos de sazonalidade. A doença ocorre tanto no hemisfério norte quanto no sul.

Na porção superior do globo, é mais comum entre dezembro e janeiro, enquanto na parte inferior o pico é de junho a setembro.

De acordo com o último boletim da Secretaria de Estado de Saúde (SES), dos 410 casos de síndromes respiratórias agudas graves notificados, 169 foram confirmados por influenza, 140 deles pelo temido H1N1. E 241 deram positivo para outros vírus respiratórios – desses, 223 eram sincicial. As SRAG mataram até o momento 49 pessoas, sendo 34 por influenza – 32 deles por H1N1 – e 15 por outros vírus. Desses 15, o VSR foi responsável por 11.

Embora grave, é a primeira vez que a pesquisa por sincicial é computada, sendo possível conhecer a proporção de casos em que ele se associa a hospitalização por SRAG no estado.

Segundo a SES, anteriormente, a identificação de vírus respiratórios em casos de SRAG hospitalizado abrangia apenas Influenza A e B e, para outros vírus respiratórios, somente em casos de óbitos e surtos de síndrome gripal. Este ano, a rotina da Fundação Ezequiel Dias (Funed) passou a incluir, em todos os casos de SRAG hospitalizados a pesquisa de vírus sincicial respiratório. Para os demais vírus respiratórios, a rotina ainda é fazer a identificação somente em caso de morte e surtos de síndrome gripal.

Carlos Starling ressalta que os dados da VSR sofrem o efeito na própria vacinação da gripe. “A imunização contra a gripe diminui a incidência de Influenza, mas, ao mesmo tempo, aumenta a importância (estatística) do sincicial respiratório. Se não houvesse a vacina para Influenza, ele não representaria mais do que 25% dos casos”, afirma o coordenador do Serviço de Infectologia do Hospital Lifecenter, Carlos Starling, da Sociedade Mineira de Infectologia.

Mutações Rápidas

O médico faz um alerta. Diferentemente de doenças como a dengue e da própria Influenza, cuja nova cepagem aparece de tempos em tempos ou, pelo menos, entre um ano e outro, no VSR pode haver mais de uma variação do vírus durante o mesmo período de incidência, por causa de sua capacidade muito rápida de sofrer mutações – nesse caso, em questão de dias ou meses. Essa, aliás, é uma característica que dificulta a obtenção de uma vacina, ainda em processo de pesquisa.

Documento da Sociedade Brasileira de Pediatria mostra que a maioria das crianças é infectada no primeiro ano de vida e, virtualmente, todas serão expostas a ele até o segundo ano de idade. Questões genéticas, como síndrome de Down, também abrem portas para o VSR. Os casos mais graves ocorrem em filhos de fumantes, que apresentam risco maior de complicações respiratórias. Quem tem asma também costuma desenvolver formas mais graves.

Tratamento

A boa notícia é que há tratamento, com o antiviral Ribavirina, imunoglobulina e alguns anticorpos usados em situações específicas. “Não são tratamentos convencionais, mas para situações mais graves”, diz. A contaminação é por vias aéreas e pelas mãos das pessoas (veja arte).

As secreções contaminam as mãos e ficam no ambiente por longo período. Os sintomas aparecem entre quatro a cinco dias depois da infecção. Outra característica letal da doença é o fato de ela ser uma infecção viral passível de complicação por infecção bacteriana.

“Uma gripe forte pode ser sincicial respiratório. Crianças abaixo de 6 meses desenvolvem com muita frequência formas graves da doença e nesse grupo infecções secundárias por bactérias são fatores complicadores”, relata.

Entre as bactérias mais comuns está a pneumococo, que pode levar a óbito. Daí a importância da Pneumocócica 10 Valente, integrante do calendário nacional de imunização, que previne contra pneumonia, otite, meningite e outras doenças causadas pelo pneumococo. “O próprio sincicial provoca pneumonia e pode evoluir para pneumonia bacteriana”, explica Starling.

Os sintomas de infecção por VSR são muito semelhantes aos da Influenza: febre, mal-estar e coriza. Mas sua característica marcante é provocar broncoespasmos (bronquiolite). O diagnóstico é laboratorial, nem sempre está disponível rapidamente nos centros de urgência. “Esse é outro fator complicador, pois o paciente acaba tomando antibióticos para outras doenças, o que não adianta.”

Drama de perto

As idas ao Hospital Infantil João Paulo II, localizado na Alameda Ezequiel Dias, no Hipercentro de BH, já se tornaram rotina para Mara Alves Santos. O filho dela, Pedro, de apenas 2 meses, enfrenta um quadro de bronquiolite causada pelo Vírus Sincicial Respiratório (VCR).

“Esta é a segunda vez que ele está internado. A primeira hospitalização ocorreu quando ele tinha 20 dias de vida. O bebê ficou 12 dias no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) e cinco na enfermaria. “Depois, meu filho ficou 13 dias em casa e voltou a ser internado, no último dia 10”, detalha.

Segundo Mara, os sintomas se manifestaram durante a amamentação. A criança apresentava dificuldades para respirar e gemia com frequência. O recém-nascido chegou a recusar o peito da mãe. “Ele chiava muito e, na primeira vez, eu procurei a maternidade onde ele nasceu. Na segunda, como eu já conhecia os sintomas da bronquiolite, já fui direto ao hospital”, conta.

As dificuldades vividas com o bebê, que nasceu com 37 semanas (oito meses e meio, aproximadamente) não são comuns na família, de acordo com a Mara. “Meu menino de 11 anos nunca sofreu desse problema. Teve algumas gripes e resfriados, mas nenhuma doença respiratória grave”.

Ela também lamenta o fato de a doença ser pouco conhecida no senso comum. “Nunca tinha ouvido falar na bronquiolite. Todo mundo conhece bronquite, mas a doença do meu filho é nos bronquíolos”.

Com Estado de Minas




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