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Três meses no cárcere: como é a rotina de Lula na prisão

Com chinelos de dedo no chão quente do asfalto, camiseta preta estampada com o rosto de Che Guevara e um megafone nas mãos, a professora Luana Rodrigues esperou até o relógio marcar pontualmente 9h para encher os pulmões de ar e soltar um sonoro “bom dia, presidente Lula”. O grito foi repetido em coro por cerca de 50 militantes concentrados nas imediações da Superintendência da Polícia Federal (PF) de Curitiba na terça-feira (3).

Foto: politica.estadao.com.brFoto: politica.estadao.com.br

A despeito do esforço vocal dos simpatizantes, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não ouviu a saudação. Preso há três meses, o petista raramente consegue escutar o cumprimento depois que, no início de maio, um delegado da PF invadiu o acampamento e quebrou o equipamento de som.

Desde então, as manhãs do detento nº 700004553820 da Vara de Execuções Penais da Justiça Federal do Paraná têm sido silenciosas e dedicadas à leitura. Mais de 20 livros foram consumidos desde a noite de 7 de abril, quando chegou de helicóptero e foi confinado em um espaço de 15 metros quadrados no último andar do prédio para cumprir os 12 anos e um mês de cadeia impostos pela condenação no processo do triplex do Guarujá.

Em geral, ele acorda por volta das 6h30min, faz o desjejum – o mesmo servido aos demais presos: café com leite e pão com manteiga – e passa boa parte da manhã lendo, quase sempre de calça jeans e moletom, por causa do frio curitibano. A rotina é interrompida para o banho de sol ou, em tempos de Copa do Mundo, para assistir às partidas, passatempo do qual não abre mão, mesmo que tenha de abdicar dos momentos ao ar livre.

— Cada escolha é uma renúncia. Quando fica vendo a Copa, perde o banho de sol — diz um interlocutor.

Lula é considerado um preso exemplar pelo comando da superintendência. Não reclama da comida (arroz, feijão, uma porção de carne e salada) ou das instalações espartanas – cama de solteiro, mesa com duas cadeiras, televisão pequena, um roupeiro de duas portas e banheiro com chuveiro elétrico. No início, quando ainda assistia TV em um aparelho de tubo cedido pela PF – mais tarde trocado por um novo trazido pelos filhos –, o petista queixava-se da programação dos canais abertos:

— Quando ligo na Globo, estão sempre falando mal de mim. Nas outras, é só programa religioso.

Há um mês, ele recebeu uma esteira, que demorou a chegar pela restrição de espaço. A família enviou várias fotos de modelos diferentes à PF, até encontrar um que passasse pela porta. Lula tem feito pouco uso do aparelho, embora, aos 72 anos e hipertenso, tenha recomendação de se exercitar.

Transferência pode ocorrer em setembro

Em geral, Lula faz um ligeiro alongamento durante o banho de sol, quando fica guarnecido por cinco agentes. A vigilância é para evitar a exposição a fotografias durante o sobrevoo de drones. Há dois meses, um veículo de imprensa chegou a alugar um avião na tentativa de obter imagens do petista.

Além de ser uma preocupação pessoal de Lula — que não quer ser fotografado na prisão —, a proteção à intimidade do ex-presidente é quase obsessiva na PF, em cumprimento a ordem expressa do juiz Sergio Moro. Todos são proibidos de portar celulares enquanto estão com ele. As tardes de segunda-feira, das 16h às 17h, são reservadas às visitas de líderes religiosos — os freis Betto e Sérgio Görgen e pelo menos um padre, um pastor e um pai de santo já estiveram lá.

Os filhos e netos têm mais tempo: ficam das 9h30min às 12h e das 13h30min às 16h, toda quinta-feira. Uma vez, a família recebeu autorização para almoçar com ele.

É também neste dia que recebe amigos e políticos, das 16h às 17h.

A todos, Lula se mostra firme e bem-disposto. Reitera sua inocência e o desejo de concorrer novamente à Presidência e critica sem pudor o tratamento recebido no Judiciário, sobretudo no Supremo Tribunal Federal (STF). Até agora, seus advogados já ingressaram com 78 recursos no caso do triplex, a maioria sem êxito.

Na última terça-feira, Lula manifestou pessimismo pela primeira vez. “Já não há razões para acreditar que terei justiça”, escreveu em carta divulgada pelo PT.

Os dias do ex-presidente em Curitiba podem estar contados. É crescente na Justiça Federal do Paraná o sentimento de que Moro irá transferi-lo para São Paulo tão logo preste o último depoimento, em 11 de setembro, no processo do sítio de Atibaia (SP). Seria natural deixá-lo perto de casa, provavelmente na Superintendência da PF em São Paulo.

Militância ergue enclave ao redor da PF

Eles chegam aos grupos. Portando bandeiras, faixas e cartazes, pedem liberdade ao presidiário mais ilustre do país. O lema é um só, gritado em uníssono e sempre com hora marcada: “Lula livre”. Há três meses, a Rua Barreto Coutinho, a uma quadra da Polícia Federal em Curitiba, transformou-se em centro da resistência petista.

Em abril, tão logo Lula foi preso, havia cerca de 500 simpatizantes acampados pelas calçadas, dormindo em barracas improvisadas e usando banheiros químicos. Hoje, raramente passam de cem. Na maioria, militantes arregimentados por PT, CUT e MST. Os poucos que pernoitam ficam em uma casa alugada. Outros dois imóveis servem como refeitório e base da Mídia Ninja, que faz transmissões ao vivo pela internet.

— É importante que o mundo veja a gente gritando. É um processo político. E bater pé todo dia, gritar que queremos votar no presidente Lula. É o que o mantém saudável — afirma a professora Luana Rodrigues, 28 anos, formadora educacional do MST.

Na última terça-feira, Luana foi encarregada de um ritual sagrado para os militantes. Puxar o bom-dia ao ex-presidente. Pouco antes das 9h, os ativistas foram se aproximando. Havia um hippie de túnica colorida, boina, barba hirsuta e óculos redondos, uma índia de cocar, chocalho e tênis, sindicalistas vindos de São Bernardo do Campo (SP) e, em maior número, camponeses sem terra de boné vermelho e chinelos de dedo.

Ao som de violão e no compasso percussivo de batuques em galões de água, recitaram em jogral o poema Para os que Virão, de Thiago de Mello, entoaram palavras de ordem em portunhol – “el pueblo unido jamais será vencido” – e encerraram com o tradicional “bom dia, presidente Lula”.

Há o boa-tarde, às 14h30min, e o boa-noite, às 19h. Entre uma saudação e outra, ocorrem aulas públicas, discussões sobre política e apresentações culturais. Artistas engajados, como Ana Cañas, Chico César e Beth Carvalho, já fizeram pocket shows ali.

Tudo é muito organizado. Na esquina, uma banquinha vende por R$ 30 camisetas da Seleção com o nome de Lula e o número 13 às costas. Duas barracas centrais servem de despensa, cozinha, biblioteca e sala de coordenação. Desde 7 de abril, quem chefia as operações é Florisvaldo Souza, enviado de São Paulo pela executiva petista.

— A gente encontrou muita solidariedade aqui. Os vizinhos fazem doações, nos ajudam. E nós colaboramos. Limpamos o chão, há equipes de segurança. Mas não vamos embora. Se precisar, passaremos os dias em pé aqui — sustenta Florisvaldo.

Toda a área está sob restrições de circulação, o que atinge também os moradores.

— Não tenho liberdade de estacionar em frente de casa. Entendo que estamos em uma democracia, mas cadê os meus direitos? — reclama a empresária Luciana Yates, que, por vezes, já se viu cantarolando as músicas dos ativistas, tamanha a frequência com que é submetida aos cânticos.

Da Redação com ZH




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