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Indícios apontam que Backer sabia de vazamento de dietilenoglicol, diz promotora

Mais de sete meses após o início das investigações sobre as intoxicações provocadas por cervejas da Backer, só agora a Polícia Civil e o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) tiveram acesso às fichas de produção da empresa, usadas para o controle de qualidade. Os documentos foram apreendidos na manhã desta terça-feira (4) no bairro Olhos D’Água, no Barreiro.

Sede da Backer foi alvo de uma nova operação na manhã desta terça-feira (4) — Foto: Divulgação/MPMGSede da Backer foi alvo de uma nova operação na manhã desta terça-feira (4) — Foto: Divulgação/MPMG

Conforme a promotora de Justiça de Defesa do Consumidor Vanessa Fusco, o material foi encaminhado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) há poucos dias. Porém, como eles estavam escaneados de forma “desorganizada” e com vários trechos ilegíveis, o órgão pediu à Justiça para autorizar a operação.

Ao todo, foram mais de mil fichas localizadas no escritório da cervejaria. Para a promotora, os primeiros levantamentos já apontam que “há indícios” de que a empresa sabia do vazamento de glicol – nos relatórios, os técnicos da empresa não especificam se é o mono ou o dietilenoglicol – na produção. “Essa é uma grande questão, até que ponto esse conhecimento vai levar a uma responsabilização penal e a partir de quando ele foi identificado”, enfatizou.

Toda a documentação vai passar por uma perícia, que vai identificar as datas de cada uma das anotações. Caso apontem novas irregularidades no processo de produção da Backer, as provas serão incluídas no inquérito da Polícia Civil, encaminhado em junho ao MPMG. Em seguida, o órgão deve oferecer a denúncia à Justiça.

Pelo menos 29 pessoas foram contaminadas pelo dietilenoglicol, com dez mortes. Apesar da empresa garantir que só usava o monoetilenoglicol, a corporação garante que não há diferenças de toxicidade entre as duas substâncias.

‘Modo rudimentar’ de controle

Além de trazer indícios de que a Backer sabia do vazamento do líquido nas cervejas – os investigadores identificaram um furo em um dos tanques que provocou a contaminação de diversos lotes da marca –, as fichas demonstram um modo “muito rudimentar” de controle de produção das cervejas. “Há uma desorganização (...). É um fato muito grave, o encontro dessas fichas pode dar um retrato do dia a dia e denota, no mínimo, uma negligência”, acrescentou a promotora.

Responsável pela área criminal das investigações, Vanessa Fusco enfatizou ainda que as análises podem descobrir se houve omissão da empresa ou má-fé ao não relatar a existência das fichas à Polícia Civil – os documentos só foram descobertos por conta da apuração paralela do Mapa. “Chegou a passar pela nossa cabeça essa omissão, mesmo porque a Polícia já esteve lá em um primeiro momento. Agora não sabemos se foi por má-fé ou desorientação. A empresa não forneceu tudo que estava no escritório”, resumiu.

O inquérito que apura a intoxicação pelas cervejas pode ser acrescentado com as novas evidências. A promotora explica que ainda não ofereceu a denúncia à Justiça justamente pela possibilidade de aparecer outras provas no relatório técnico do Mapa. A expectativa é que o documento seja concluído pela pasta nesta semana.

Ao todo, 11 pessoas já foram indiciadas pela Polícia Civil, entre os sócios da Backer e funcionários, por lesão corporal, contaminação de produto alimentício e homicídio. Em cada um dos lotes contaminados, a corporação conseguiu identificar pelo menos seis milímetros de dietilenoglicol, mais que o dobro da dose considerada fatal.

Trechos ilegíveis

Durante as investigações paralelas do Mapa, foram descobertas as fichas de produção da empresa. O material foi escaneado pela própria Backer e enviado aos técnicos da pasta. Porém, segundo a promotora Vanessa Fusco, diversos trechos estavam ilegíveis. “Havia supressão de algumas anotações, não sabemos se foi algo voluntário ou involuntário, se a empresa teve a intenção de esconder. Isso ficou nebuloso e foi preciso ter acesso físico aos documentos”, finalizou.

Procurado, o Mapa ainda não se pronunciou sobre o relatório técnico e as novas evidências de irregularidades na empresa. A Backer também não se manifestou sobre o caso.

Com O Tempo




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