Há 30 anos atrás eu costumava rodar por aí com uma cópia de “Eu e outras poesias”, de Augusto dos Anjos, “xerocada” de um exemplar emprestado na biblioteca municipal.
“Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
A idéia estertorava-se… No fundo
Do meu entendimento moribundo
jazia o último número cansado.
Era de vê-lo, imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora da sucessão, estranho ao mundo,
Com o reflexo fúnebre do Increado:
Bradei: – Que fazes ainda no meu crânio?
E o último número, atro e subterrâneo,
Parecia dizer-me: “É tarde, amigo!
Pois que a minha ontogênica Grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa,
Não te abandono mais! Morro contigo!”
“O Último Número” era o nome do último soneto do livro e por coincidência mórbida e eficaz, também o último poema escrito por Augusto. Fiquei intrigado ao descobrir através de um conhecido com quem trocava vinis que existira uma banda cujo nome era inspirado no poema do meu então poeta predileto. O Último Número (a banda), era um quarteto formado em Belo Horizonte em 1985. No inconsciente coletivo haviam ecos de sons muito ouvidos (Beatles e Doors), e outros apenas mencionados (Velvet Underground, Joy Division), enquanto no mainstream quase tudo revolvia em torno do post-punk, new wave e similares. Jair Gatto, além de um notável poeta e letrista, deixava evidente a influência de Jim Morrison nos vocais graves, as guitarras e violões de João Daniel (que posteriormente formaria as bandas Sexo Explícito e Pato FU), ora emprestavam influências das batidas de acordes abertos à la Pete Townshend, ora do pseudofunk angular característico de Gang of Four e Killing Joke, enquanto Paulo Horta, o baixista e arranjador, junto com Clôde, o baterista, colavam esse amálgama de maneira firme e convincente.

O Strip Tease da Alma, disco de estreia do O Último Número foi gravado e lançado em 1986, através do selo criado pelo baterista Clôde, Câmbio Negro Produções, que era também o nome de sua loja de discos localizada na Galeria Praça 7 (durante muitos anos o reduto rock de BHZ). O talento de Gatto, considerado por alguns críticos um dos melhores letristas brasileiros de então, se mostra na maioria das faixas, com destaque para (talvez), a única coisa do O Último Número que chegou próximo de ser um “sucesso”, Animal Sentimental:
A Lua estilhaçava-se em pedaços de cristal
Sobre eles se cortava este animal sentimental
A Lua estilhaçava-se em pedaços de cristal
Sobre eles se cortava este animal sentimental
Visito seu subúrbio
Hesito em te rever
Murmuro versos junto ao muro
Diversos, imundos, no escuro
Aonde se escondeu a noite que você me deu?
Outros destaques são Eu Não Vôo, com seus jogos de palavras, Tempo dos Assassinos, Não Vou Embora (um hino boêmio invernal), a faixa-título O Strip-Tease da Alma, com seu “quase-jazz” (“Você precisa ser uma grande atriz, Vender aos outros que você é feliz”), Dama da Noite e Perjúrio, outro bom momento lírico (esta uma composição do guitarrista João):
Então me mate
Que eu não consigo me matar
Então me mate
Que eu não consigo me matar
Depois também te mato
Eu juro
O Último Número, além da inteligência literária, musicalmente era uma banda extremamente “visual”, no sentido semiótico de conseguir criar “paisagens sonoras” que, traduzindo metaforicamente a ideia das letras em seus arranjos e interpretações se tornariam peças únicas e mutuamente insubstituíveis (não à toa, seu segundo álbum, lançado em 1988 se chamava “Filme”). A “parte Brasil” da coisa:
O Strip-Tease da Alma é um dos melhores discos dos anos 80, mas criminosamente nunca reeditado em CD ou qualquer outro formato. Quem não tem o vinil só consegue ouvi-lo hoje em dia no You Tube.
Eu ainda tenho o meu, com dedicatória do Clôde, comprado na extinta Câmbio Negro, ainda naquelas épocas dos livros “xerocados”.
Tracklist:
01 Dama Da Noite
02 Ars Longa Vita Brevis
03 Animal Sentimental
04 A Divina Comédia (O Jogo da Amarelinha)
05 Insistência
06 Eu Não Vôo
07 O Tempo dos Assassinos
08 Perjúrio
09 Agora Não
10 Destino
11 O Strip-Tease da Alma
Formação:
Jair Gatto (posteriormente chamado de Gato Jair) – vocal;
João Daniel – guitarras e violão;
Paulo Horta – baixo e arranjos;
Clôde Franco – bateria.