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Dólar sobe após reações ao Auxílio Brasil e desavenças no Ministério da Economia

O mercado doméstico de câmbio foi atingido nesta quinta-feira (21) pelo o que analistas costumam chamar de tempestade perfeita. Aos sinais inequívocos de que o governo Jair Bolsonaro está disposto a usar expedientes para driblar o teto de gastos, na tentativa de se cacifar para a corrida eleitoral, somou-se nesta quinta uma onda de fortalecimento global da moeda norte-americana que castigou divisas emergentes.

Foto Ilustrativa: circuitomt.com.brFoto Ilustrativa: circuitomt.com.br

Em meio ao azedume com o aumento do risco fiscal, o dólar à vista já iniciou o dia em forte alta, rompendo o teto de R$ 5,65 logo nos primeiros minutos do pregão. Era evidente o mau humor com declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes,na quarta à noite, de que o governo pode pedir um "waiver", uma "licença para gastar" além do que o teto permite para bancar o Auxílio Brasil. Tido outrora como fiador da austeridade fiscal, Guedes disse que a "política é quem decide", admitindo a perda da queda de braço dentro do Palácio do Planalto.

"Guedes perdeu a credibilidade do mercado com uma série de decisões, como a taxação de dividendos, o aumento do IOF, a questão dos precatórios, que representa um calote, e agora o rompimento do teto. Ele já não tem mais condições de ancorar as expectativas do mercado", afirma o head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto.

O ministro da Economia também deixou escapar na quarta que o governo trabalhava com uma mudança no cálculo do teto de gastos - uma manobra com cheiro de contabilidade criativa. Reportagem exclusiva do Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) revelou nesta quinta à tarde que as alas política e econômica haviam chegado a um acordo para alterar a fórmula do teto, o que, aliada à limitação do pagamento de Precatórios, abriria uma folga de R$ 83,6 bilhões no Orçamento.

Foi o que bastou para que o dólar, que havia arrefecido um pouco o ímpeto altista, voltasse a acelerar. O caldo entornou de vez com declarações do presidente Jair Bolsonaro, durante evento em Pernambuco, de que atenderia a demanda de caminhoneiros autônomos de auxílio para compensar a alta do diesel. Fontes ouvidas pelo Broadcast informaram que a tal ajuda aos caminheiros poderia ser de R$ 400 por mês (de dezembro deste ano a dezembro de 2022), em custo total estimado em cerca de R$ 4 bilhões.

Em resposta a mais um sinal de que o governo está disposto a abrir os cofres, o dólar chegou a superar a casa de R$ 5,69, ao tocar na máxima de R$ 5,6905 (+2,33%). A moeda americana desacelerou o ritmo de alta em meio à divulgação de detalhes do novo texto da PEC do precatório pelo deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), amenizando um pouco o nível de incerteza sobre os planos do governo.

A intenção, como adiantado pelo Broadcast, é mudar, de fato, as regras do teto. Criado em 2016 e implementado em 2017, o teto prevê correção do limite de gastos pela inflação acumulada em 12 meses até junho. A proposta é alterar a correção para inflação de janeiro a dezembro - recalculando os limites desde 2016. Essa mudança proporcionará uma folga orçamentária e R$ 40 bilhões, que aliada à limitação do pagamento de precatórios - joga o espaço fiscal em 2022 para R$ 83,6 bilhões.

No fim da sessão, o dólar era negociado em alta de 1,92%, a R$ 5,6676, maior valor desde 14 de abril (R$ 5,6705). A moeda acumula valorização de 3,90% nesta semana e de 4,07% em outubro. Na B3, o giro com o contrato futuro de dólar para novembro - termômetro do apetite para negócios, era robusto, de mais de US$ 19 bilhões.

O head de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt observa que aumento de gastos cogitado até agora não altera de forma relevante a relação dívida/PIB, principal indicador da saúde fiscal do país. O que assusta o mercado, diz Weigt, é a incerteza em relação à magnitude das despesas e à manutenção da âncora fiscal. "A solução menos ruim seria colocar despesas pontuais extrateto. Não tem que mudar a regra do teto", afirma Weigt. "O problema é que não se sabe quanto vai ser gasto. Falam de auxílio de R$ 400, mas pode ser R$ 500, R$ 600, e podem inventar outras despesas", acrescenta o tesoureiro, dando como exemplo a notícia de que o governo pretende subsidiar o diesel para os caminhoneiros.

Não bastassem as pressões internas, o dia lá fora foi marcado por uma rodada de fortalecimento da moeda americana, com investidores adotando uma postura defensiva em meio aos problemas de solvência da incorporadora chinesa Evergrande. Também dava fôlego ao dólar o aumento das apostas de que o Federal Reserve pode começar a subir os juros ainda no início do segundo semestre de 2022. A onda de inflação global não mostra sinais de arrefecimento e pode ensejar uma mudança na política monetária nos países desenvolvidos mais cedo do que se imaginava

O índice DXY - que mede a variação da moeda americana frente a seis divisas fortes - operou em alta firme ao longo do dia, na casa dos 93. O dólar subiu com força também em relação a divisas emergentes e de países exportadores de commodities. Entre os pares do real, a valorização era de 1,60% ante o rand e superior a 0,40% frente ao peso mexicano. A maior valorização se dava na comparação com a lira Turca (+3%), reflexo da decisão do Banco Central Turco de cortar a taxa os juros (de 18% para 16%), após o presidente Recep Tayyip Erdogan ordenar a demissão de três dirigentes da autoridade monetária.

"O ambiente externo é de alta do dólar. A aversão ao risco aumentou novamente com preocupações de desaceleração da economia chinesa, que enfrenta crise energética e no setor imobiliário. Além disso, o Fed deve começar o tapering mesmo em novembro", diz Netto, da Acqua-Vero Investimentos, que não vê espaço para o dólar voltar a ser negociado abaixo de R$ 5,50 no curto prazo. "Se as condições se deteriorarem, podemos ver o dólar batendo em R$ 5,70. O BC não entrou hoje, com esse estresse todo. Isso mostra que ele vai atuar apenas para dar liquidez no momento em que houver fluxos relevantes de saída."

Com Estadão Conteúdo




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