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Desequilíbrio climático pode atrasar recuperação da bacia do rio Doce

Chuvas mais fortes e secas mais severas: estas são algumas das consequências das mudanças climáticas previstas para os próximos anos, para todo o mundo. Um relatório publicado pelo Painel do Rio Doce – gerido pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e que acompanha a situação da bacia do rio Doce, afetada após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015 – pede que os projetos de restauração executados ao longo da bacia sejam reavaliados e que considerem as alterações do clima nos próximos anos na região.

Foto: Mariela Guimarães/ O TempoFoto: Mariela Guimarães/ O Tempo

O relatório levou em conta outro levantamento, feito em 2011, pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), que revelou que mudanças climáticas significativas estão previstas para a região da bacia do rio Doce, até 2080, devido à emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) na atmosfera. A maior parte da bacia, cerca de 86%, está localizada em Minas Gerais, e os outros 14% no Estado do Espírito Santo.

O estudo de 2011, que avaliou apenas a parte que fica em território mineiro, apontou que, até 2080, a temperatura média na região da bacia pode aumentar de 3ºC a 3,6ºC. Em um cenário mais otimista, com políticas de redução de emissão de gases na atmosfera, a elevação na temperatura média poderia ficar entre 2ºC e 2,5ºC.

Caso as previsões se confirmem, 23 dos 42 projetos de restauração das áreas afetadas pelo rompimento da barragem de Fundão, conduzidos pela Fundação Renova – entidade responsável pela reparação dos danos –, serão prejudicados. Grande parte deles está ligada à restauração florestal, desde a cabeceira do rio Doce, localizada nas serras da Mantiqueira e do Espinhaço, até a foz em Regência, no Espírito Santo.

De acordo com a consultora na área de mudanças climáticas Christianne Maroun, membro do Painel do Rio Doce, o aumento da temperatura média gera não apenas mais calor, mas traz outras consequências. “Pode até ficar mais frio em alguns momentos. Mas haverá um desequilíbrio no clima. A estação de seca vai ser mais prolongada e mais seca. A de chuva também ficará mais prolongada e mais chuvosa. Ou seja, teremos mais extremos”, explica.

Apesar de esse cenário parecer distante, há estudiosos que acreditam na possibilidade de que os eventos climáticos atuais indiquem uma tendência de mudanças já nos dias de hoje. “Alguns cientistas consideram que a seca prolongada que a região tem vivido atualmente, além de mais chuvas na estação de chuva, como foi o caso das enchentes que a gente observou neste ano, já são impactos das mudanças climáticas”, disse Christianne Maroun.

Mudanças vão afetar plantio de mudas e restauração de usina

Com o desequilíbrio climático na bacia do rio Doce em vista, projetos desenvolvidos na hidrelétrica de Candonga – que fica no curso do rio e também foi afetada pelo rompimento da barragem de Fundão – e de restauração florestal podem ser os mais prejudicados. “Os mais ameaçados diretamente são os programas de restauração florestal. Porque, se a gente planta uma muda e a estação de seca é mais prolongada, pode ser que essa muda não sobreviva”, afirma Christianne Maroun.

Uma saída, de acordo com a especialista, é a de que sejam escolhidas plantas que se adaptem melhor ao período de seca mais prolongada.

“No projeto de recuperação da hidrelétrica de Candonga, a ocorrência de mais chuvas e mais enchentes na região pode causar atrasos e até interferir nos equipamentos que foram construídos lá”, explica. Segundo ela, a estrutura precisa ser reconstruída de forma a resistir a possíveis enchentes.

“Essa não é uma recomendação para a Renova, mas para todos os atores que participam de governança na região. Os planos de ações climáticos estão sendo implementados no mundo inteiro, porque o clima realmente está mudando”, pontua Christianne Maroun.

Próximos passos

O relatório do Painel do Rio Doce foi entregue à Fundação Renova e será discutido com prefeitos e atores públicos.

Fundação Renova

A fundação afirma que é parceira da UICN e que as orientações do estudo são direcionadas a atores públicos e mais de 70 entidades.

Com O Tempo




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