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Atestado de óbito de jovem morto em abordagem policial aponta para 'politraumatismo craniano'

Apesar da versão inicial apresentada pela Polícia Militar (PM), de que um mal súbito poderia ser a causa da morte de um rapaz de 24 anos, ocorrida na última quarta-feira (27) durante uma abordagem policial na vila Pica-Pau, no bairro Jardim Vitória, na região Nordeste de Belo Horizonte, o atestado de óbito entregue para a família aponta para um possível politraumatismo craniano. A informação foi confirmada por parentes da vítima ao Hoje em Dia na tarde desta sexta-feira (29). O ferimento é compatível com a versão apresentada pelas testemunhas, de que ele teria levado uma rasteira do policial e batido a cabeça no chão.

Ferimento é compatível com a versão das testemunhas, de que ele bateu a cabeça após ser derrubado pelo PM. Foto: ReproduçãoFerimento é compatível com a versão das testemunhas, de que ele bateu a cabeça após ser derrubado pelo PM. Foto: Reprodução

"O politraumatismo foi a conclusão preliminar, do médico que atendeu meu irmão. Agora temos que aguardar o laudo da necrópsia, que pode trazer mais detalhes sobre a morte", disse a irmã da vítima, de 22 anos, que preferiu não ser identificada. Na quinta-feira (28), a PM chegou a afirmar que o médico que fez o atendimento do rapaz morto na UPA Primeiro de Maio teria constatado "apenas um hematoma antigo na região dos joelhos". Ainda segundo a jovem, o irmão foi enterrado na manhã desta sexta no cemitério Terra Santa, em Sabará, na Região Metropolitana da capital mineira.

O rapaz morto e outros dois conhecidos - entre eles o seu cunhado - foram parados por uma viatura da corporação na avenida José Rachel de Pinho no fim da tarde, segundo a própria PM. No relato de testemunhas, o trio estava trabalhando na capina de um lote de uma igreja evangélica e foram abordados pelos policiais no momento em que iam embora após a conclusão do serviço. A reportagem conversou com pastor da igreja em questão, que confirmou a versão apresentada pela família.

Na versão dos familiares do rapaz morto, o militar já teria iniciado a abordagem com agressividade. "Meu irmão falou para eles que não estavam fazendo nada errado, que estavam trabalhando, e mostrou o pé todo sujo de barro. Nisso, esse militar já deu uma rasteira nele, que caiu e bateu a cabeça no chão. A polícia fala que ele reagiu à abordagem, mas o que as testemunhas dizem é que ele não teve sequer tempo de reagir. Depois disso arrastaram ele para outro lugar e, com ele já sem força, esse policial deu uma pisada no peito dele", contou a irmã dele.

Na quinta-feira, o comandante do 16º Batalhão, tenente-coronel Frederico Otoni, contou para a reportagem qual foi a versão apresentada pelos policiais após a confusão. "Uma equipe fazia uma operação de combate ao tráfico e abordou o trio em um local conhecido por ser usado por usuários de drogas e traficantes. Um deles teria reagido, momento em que o militar usou força física para contê-lo. Segundo o militar, logo depois disso o suspeito teria levantado novamente, mas em seguida passou mal com sintomas de ter sofrido uma parada cardiorrespiratória", disse.

De posse do relato dos militares envolvidos na ocorrência e dos outros dois abordados, a corporação instaurou na manhã de quinta-feira o inquérito com o objetivo de identificar, com base na necrópsia da vítima, se a morte pode estar relacionada com a ação policial. "Se houver relação, a gente parte para a segunda situação, que é apurar se houve uso excessivo de força. Mas a peça chave é o laudo do IML. Apesar disso, o militar que teve que usar força física durante a ação foi afastado preventivamente. Ele vai realizar apenas trabalhos internos no batalhão até que a apuração seja encerrada. Os outros dois militares continuam trabalhando normalmente", completou o comandante.

PM disse que vítima já foi presa por tráfico; família contesta

Na noite do dia do crime, a PM convocou uma coletiva de imprensa em que chegou a citar a informação de que o jovem morto durante a abordagem já teria passagem pela polícia por tráfico de drogas e que os outros dois rapazes abordados também já tinham sido presos anteriormente. Entretanto, segundo os parentes dele, isso não seria verdade. "Eles estão falando mentira, dizendo que ele tinha passagem sendo que ele nunca foi preso. Ele não tem passagem nenhuma, não vendia droga. A única coisa que ele fazia era usar, mas sempre respeitou o limite da outra pessoa, não desrespeitava ninguém", argumentou a irmã da vítima.

Indagado sobre a contestação dos parentes do jovem morto, o tenente-coronel Frederico afirma que existe sim no sistema da corporação um Boletim de Ocorrência em que a vítima aparecia como autor do crime de tráfico de drogas. "O BO é uma peça inicial de uma ocorrência. O que acontece é que pode ser que ele não tenha sido condenado ou que o delegado desqualificou ele como autor e não ratificou a prisão da PM. É uma ocorrência de 2018, decorrente de uma denúncia anônima de tráfico de drogas que foi verificada por nossos homens", ponderou.

Buscando pelo nome da vítima no sistema do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), nenhuma condenação criminal foi localizada. Procurada, a assessoria de imprensa da Polícia Civil (PC) disse não repassar informações sobre antecedentes criminais e explicou que a instituição só atua caso exista indício de crime na morte do rapaz. "Para tanto, precisamos aguardar o laudo da perícia para darmos início aos primeiros levantamentos. O laudo fica pronto dentro de um prazo de 30 dias, que pode ser prorrogado pelo mesmo período", diz a nota.

Com Hoje em Dia




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